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21.10.13

25 - Ilhéus (BA)


Mar de água cor de canela, coqueiros, céu azul, depois cinza, chuva, calor, rugir das ondas para embalar o sono, frutos do mar, praia deserta. Mini férias. Passamos alguns dias em Ilhéus. Nossa segunda visita à cidade. A primeira vez foi há treze anos atrás, pouco depois de nos casarmos. Ficamos nas praias do sul então. Escolhemos uma pousada do lado norte agora, no caminho para Itacaré. 


A praia era tão deserta que tinha medo de fazer as caminhadas solitárias com os pés na água de que tanto gosto. Ficava nas imediações da pousada, observava a paisagem, entrava rapidamente na água e voltava. 

 

O tempo variou bastante. Choveu, ventou, fez frio, calor... 

 
 


Marido escolheu a pousada. Ela era bem pequena, com apenas três chalés, administrada por um casal de italianos. Quando chegamos, havia apenas um outro casal que foi embora no dia seguinte, passamos o resto da semana praticamente sozinhos. Há várias outras pousadas ao longo da estrada, mas os turistas aparecem mais nos meses de férias de verão e tudo parecia vazio. Todos os proprietários de negócios com os quais conversamos disseram o mesmo: tirando dezembro e janeiro, não há movimento. Muita gente acaba quebrando por causa desse desequilíbrio. Quem tem propriedades nessa área da praia do norte também está ameaçado de perder tudo se o projeto de um porto para transporte de minérios for para a frente. Seria uma pena.


Nossa pousada era cercada por verde e a praia em frente era muito bonita, acabamos passando a noite em um dos chalés e depois nos mudamos para outro em busca de um sinal de internet melhor. Marido já abrira mão da televisão, mas sem internet ele não ficaria. Gostei da pousada, todos foram muito simpáticos, mas algumas coisas poderiam ser melhoradas, como um frigobar um pouco barulhento e a água que vazava pela lateral do box do chuveiro no primeiro chalé, já no segundo, os trincos de algumas portas não fechavam e o da varanda se trancava sozinho, o que criou episódios insólitos, como ficarmos os dois trancados do lado de fora na varanda do segundo andar. Tive que ficar gritando para que alguém viesse nos salvar. A alternativa seria pular e tentar escalar o muro para entrar pelo banheiro...


O café era simples, mas as frutas eram sempre frescas e comemos tapioca quentinha todos os dias. Na hora do almoço, pegávamos o carro e íamos comer em algum lugar. Jantávamos na pousada, mas a comida não era lá essas coisas e, como a área de refeição ficava ao ar livre, servíamos de repasto para os insetos locais, algo pouco agradável.


Gostei muito da cama com dossel, ele mantinha os insetos afastados e era como acordar dentro de uma caixa de luz pela manhã. Por falar em acordar, nós nos levantávamos muito cedo, lá pelas cinco já estava muito claro. Havia apenas um vigia e três labradores nos arredores até às sete, quando uma mulher chegava para abrir a recepção/cozinha e dava início aos preparativos do café da manhã que era servido às oito. No primeiro dia, resolvi sair lá pelas seis e meia para tirar fotos e não cheguei a caminhar alguns metros quando os três labradores me viram e resolveram me "cumprimentar" com pulos e mordiscadas, acabei dando meia-volta, àquela altura já tinha alguns arranhões e a bermuda suja com marcas de patas.

 

Os cajueiros crescem em todos os lugares, os frutos não são bonitos como os comercializados, mas atraem vários animais silvestres. Espero que o porto não seja construído e que os proprietários da pousada decidam continuar investindo no negócio.


Dia de fazer uma limpeza nos coqueiros para evitar acidentes, não deve ser fácil subir lá em cima.


Muitos micos nas árvores. Uma vez, contei cerca de dez pulando das telhas do chalé para uma folha de coqueiro ao meu lado.



Flores que crescem perto da praia.

 
 

Então decidimos ir almoçar em Itacaré em um dia de chuva. Estrada deserta, cheia de subidas e descidas. No caminho, um caminhão com uma calcinha pendurada no parachoque traseiro. Não tirei fotos de Itacaré, mas não gostei da cidade, ela é pequena, amontoada, pessoalmente, achei bem pouco charmosa e deve ser infernal nas férias, pois as ruas são estreitas e as lojas e restaurantes ficam concentrados em uma área. Almoçamos em um cabana na praia da Concha, outra má ideia em dia de chuva, pois as cabanas não protegem contra o vento e a rua de terra estava cheia de poças e lama.

 

A melhor parada na rodovia à beira-mar entre Ilhéus e Itacaré (BA-001) é a Cabana da Empada no km 28. Nossa pousada ficava próxima e almoçamos lá três vezes. (Também passamos por lá no final de uma tarde e compramos suco e empadas para o jantar). O forte são as empadas salgadas e doces, mas há uma área de restaurante aberta para almoço que recomendo muito. Comemos três pratos diferentes e todos estavam ótimos. Deve ser o negócio mais próspero da região, pois sempre há gente parando para comer uma empada ou almoçar. Os preços são justíssimos. As empadas doces e salgadas custam R$ 4,00 e são bem recheadas. Há de camarão, carne de sol, palmito, frango, caranguejo. As doces são praticamente mini tortinhas de limão, maçã, doce de leite com nozes, brigadeiro, cupuaçu com chocolate...


A proprietária cuida pessoalmente do negócio e presta atenção aos menores detalhes. A pimenta é deliciosa, o café é muito bem tirado e chega com um potinho de creme. Os camarões dos pratos são enormes.

 
 

Os sucos de frutas são muito bons. Dentre as opções, pedi a mais curiosa: araçá-boi. Digamos que é uma fruta com bastante "personalidade", seu suco é grosso e azedo, não consegui terminar. 

 

Todos os dias havia um arranjo de flores diferente na pia do lavatório. 

 
 

Em uma de nossas incursões pelas praias do sul, resolvemos comer no Peixe na Brasa, em Cururupe. A cabana fica escondida, a praia estava deserta e acho que fomos os únicos comensais naquele dia. O dono disse que é assim nesta época do ano. O banheiro era bem precário e a higiene do lugar me deixou um pouco preocupada, mas fomos decididos a comer o peixe e, ao menos ele, não nos decepcionou. O dono trouxe dois vermelhos grandes e frescos para que escolhêssemos o tamanho e, após quarenta minutos, ele retornou à mesa com arroz, batatas, farofa e pirão. Dispensamos os acompanhamentos por temermos algum "incidente" futuro, mas o peixe, ah, o peixe! Um dos melhores, ou o melhor, que já comemos: úmido, casquinha crocante e muito bem temperado. Valeu a pena ter resistido à vontade de sair correndo dali. Espero que a cabana resista e tome alguns cuidados para ficar mais atraente no futuro.

 
 

Tinha ido para Ilheús com a firme intenção de visitar uma fazenda de cacau, mas minhas tentativas de contatar algumas delas foi vã, ninguém atendia ao telefone ou respondia os e-mails. Por sorte, descobri que a Ceplac (Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira) oferece visitas gratuitas, basta aparecer no Centro, que fica na rodovia Ilhéus-Itabuna, entre 8h:30-10h:30 ou 13h:30-15h:30. Assiste-se a um video curto sobre o trabalho do centro e depois um guia mostra um pouco mais da área da fazenda: as plantações de cacau, o galpão de fermentação e de secagem. É básico, mas achei bom. Só é preciso ir de carro para circular lá dentro.
Nosso guia me deu dois frutos de cacau que estavam no chão e disse que eu poderia tentar fazer mudas em casa. Torçam para que isso dê certo!

 
 
 
 


Acabamos não passando pelo centro histórico de Ilhéus, só cruzávamos a cidade quando íamos do lado norte para o sul. Lamento apenas não ter ido até lá para comer um acarajé.
Não encontrei um bom chocolate local, entrei em contato com a fábrica dos chocolates Mendoá, mas recebi respostas vagas sobre a possibilidade de fazer uma visita e, no fim, não deu em nada. Demos uma parada na loja dos Chocolates Caseiros de Ilhéus e não gostei do que provei, achei bem fraquinho.
Comemos muitos pescados e os preços dos pratos, em geral, custavam a metade do que custam no sudeste. Foi uma experiência culinária mais positiva do que aquela do começo do ano no Espirito Santo, mas sou suspeita, adoro o tempero baiano... 
Fomos sempre bem atendidos, a comida levava tempo para chegar à mesa, mas não tínhamos pressa. A única coisa triste foi ouvir o pessimismo dos comerciantes que vivem do turismo. Eles praticamente esperam os meses de verão e tentam empatar ganhos e despesas durante os outros meses do ano.
Enfim, foi uma boa quebra de rotina.



10.10.13

24

Prof. japonês comentando que Haruki Murakami não é muito bem visto pelos críticos literários no Japão. Ele não é considerado "alta literatura". Concordo. Pensei em perguntar se ele seria análogo ao Paulo Coelho no Brasil. De qualquer forma, minha atração por Murakami diminuiu depois de 1Q84. Acho que ele tem o seu encanto para as pessoas mais jovens, mas chegando na metade dos trinta, as necessidades e ideias sobre a vida mudam. Viver no limbo, sem tomar decisões, é para quem tem problemas em deixar a adolescência que, convenhamos, atualmente termina muito tarde.


26.9.13

22

Me rendi a um bolo. Porque leva quase que só aveia e banana. Porque dá para reduzir muito o açúcar. Daqui.

Muitas pitangas nos últimos dias.

25.9.13

21

Ontem assisti à segunda aula do professor japonês. Fazia tempo que não gostava tanto de três horas e meia de aula em humanas. Ao menos na minha área de pesquisa anterior, ela geralmente era um monólogo longo, lento e monótono. É revigorante sentar e ouvir um professor dar um tema e falar algo com começo, meio e fim. E há perguntas, ele procura interagir conosco, faz brincadeiras e pede que cada um procure se expressar em japonês, mesmo que fale errado. Acho um barato. As informações que ele nos passa devem ser banais para os japoneses, mas é quase tudo novidade para nós. Imagino que ele se sinta um alienígena falando na frente de aborígenes, pois sempre pergunta se estamos entendendo. Tinha ouvido os comentários dos alunos que entraram na pós antes de mim sobre suas experiências com os professores japoneses e fiquei preocupada, mas, por enquanto, estou bastante satisfeita.
Haverá dois dias em que teremos aulas o dia inteiro e vou ter que ficar em SP para chegar a tempo pela manhã. Estou estudando as opções, alguém recomenda alguma pensão/albergue? Preciso só da cama e que seja um lugar seguro.

20.9.13

20


O céu desta tarde me lembrou do céu de um outro dia. Tinha dezoito anos. Acabara de me matricular no curso de filosofia e não estava certa sobre o que fazer da vida. Algo que não mudou muito, infelizmente. Filosofia era uma ideia sedutora, sem futuro algum, mas eu me recusava a prestar vestibular para um curso que pudesse me dar algum status social ou garantir um emprego "respeitável". (A gente sempre enfia o pé na jaca por vontade própria).
Naquele dia, estava sentada à beira da piscina de um hotel fazenda vazio no meio do Pantanal mato-grossense com um exemplar de "Tristes Trópicos" no colo. Parecia ser o livro adequado para ler naquele lugar e eu tinha lá as minhas veleidades intelectuais. A piscina estava suja e um sapo morto boiava em sua superfície. 
Ganhara a viagem como prêmio de um concurso cultural promovido por um jornal e acompanhava o trabalho de campo de uma bióloga que protegia as araras azuis. Passávamos o dia percorrendo os arredores para checar ninhos, medir e pesar aves. Achava o trabalho daquela mulher apaixonante.
Conforto zero, a vastidão dos campos, o ruído dos bichos à noite, o isolamento total, queria aquilo para mim. Foi algo mágico e lamentei voltar. No entanto, quando penso em tudo o que vi e senti naqueles poucos dias, a imagem que logo me vem à mente é a daquele sapo morto na piscina suja iluminada pelo sol do final de tarde.

17.9.13

19

Ontem foi o primeiro dia de aula do curso deste semestre. Professor made in Japan. Ele chegou de viagem no domingo e deu aula na segunda com jetlag e tudo. Não fala português, a aula foi toda em japonês. Estava preocupada, perguntando-me se não ficaria perdida, mas até que entendi bem, ele escolhe palavras simples, fala devagar e de forma clara. Fiquei contente. O problema é do meu lado. Para ler e escrever há os dicionários, mas falar exige uma resposta imediata e, enquanto fico procurando pelas palavras apropriadas, sinto que elas fogem como borboletas. Para me comunicar melhor, tenho que falar mais, nem que esteja errado, não é mesmo? Darei o rosto a bater e sei que vai doer.

Nós nos apresentamos e discutimos um texto de Natsume Soseki do livro "Dez noites de sonhos". Lemos o primeiro sonho, um dos mais bonitos e românticos. Acho que já há tradução para o português, mas decidi fazer minha versão. Traduções nem sempre são acessíveis e achei que algumas pessoas poderiam se interessar. Se gostarem, posso tentar traduzir mais textos curtos de autores pouco conhecidos por aqui no futuro, é um bom exercício para mim. E se houver erros ou correções a fazer, por favor, digam.



O sonho da primeira noite

Tive este sonho.
Sentava-me com os braços cruzados à cabeceira de uma mulher que estava deitada com o rosto voltado para cima. Ela disse que iria morrer com uma voz calma. Seus longos cabelos espalhavam-se sobre o travesseiro emoldurando os contornos de sua delicada face oval. A cor de seu sangue era visível sob as bochechas brancas, seus lábios eram vermelhos. Ela não parecia prestes a morrer. Mas a mulher, com voz calma, disse claramente que iria morrer. Eu também achava que ela iria morrer. “Ah, então você vai morrer?”, perguntei espiando-a. “Vou morrer”, respondeu ela abrindo os olhos. Olhos grandes e úmidos, uma superfície negra circundada por longos cílios. Meu reflexo flutuava vividamente no interior de suas pupilas.
Perguntava-me se ela realmente iria morrer observando o brilho daqueles olhos negros cuja transparência permitia que mergulhasse até seu interior. “Você não vai morrer, não é mesmo? Está tudo bem, não está?”, perguntei outra vez aproximando os lábios de sua cabeceira. “Mas sim, vou morrer, não há o que fazer”, respondeu ela com os olhos sonolentos.
“Você consegue ver meu rosto?”, perguntei com emoção. “Se o vejo? Ora, não estou refletida em seus olhos?”, respondeu rindo. Afastei o rosto sem dizer nada. Perguntava-me se ela realmente iria morrer enquanto cruzava os braços. Após algum tempo, ouvi-a dizer:
“Depois que eu morrer, enterre-me. Cave um buraco com uma concha de madrepérola. Marque meu túmulo com os pedaços das estrelas que caíram do céu. Então fique ao seu lado e espere, pois irei reencontrá-lo”.
“Quando você retornará?”, perguntei.
“O sol nasce, não é mesmo? Depois ele se põe, não é mesmo? Então nasce e se põe outra vez, não é mesmo? Você pode esperar enquanto o sol rubro vai do leste para o oeste, do leste e cai no oeste?”
Balancei a cabeça sem dizer nada. Ela aumentou ligeiramente a entonação de sua voz calma:
“Espere cem anos”, disse de forma decidida, “sente-se ao lado de meu túmulo e espere cem anos. Virei ao seu encontro com certeza”.
Respondi apenas que a esperaria. Então o reflexo de meu rosto, que podia observar vividamente no interior de suas pupilas negras, começou a se desmanchar. Era como se as águas começassem a se movimentar e perturbar o reflexo de uma sombra, quando achei que elas iriam transbordar, os olhos se fecharam. Lágrimas surgiram entre seus longos cílios e escorreram sobre as suas bochechas. Ela morrera.
Fui ao jardim e cavei um buraco com uma concha de madrepérola. Ela era grande, com bordas regulares e afiadas. Cada vez que retirava a terra, a lua se refletia na sua parte externa. Sentia o cheiro da terra úmida. Terminei de cavar o buraco após algum tempo. Depositei a mulher em seu interior e comecei a cobri-la com a terra macia. Cada vez que fazia isso, a lua era refletida pela concha.
Depois, recolhi os pedaços de estrelas e coloquei-os sobre a terra. Eles eram arredondados, deviam ter perdido as arestas enquanto vieram caindo do céu por um longo tempo e ficaram assim. Enquanto os pegava e colocava sobre a terra, meu peito e mãos aqueceram-se um pouco.
Sentei-me sobre o musgo. Ia ficar ali esperando por cem anos, pensava, observando as pedras das estrelas. Logo, como dissera a mulher, o sol nasceu no leste. Era um sol grande e vermelho. Logo, também como dissera a mulher, ele se pôs no oeste e desapareceu de repente ainda vermelho. “Um dia”, contei.
Após algum tempo, um sol rubro se levantou e então se pôs em silêncio. “Dois dias”, contei outra vez.
Enquanto contava os dias dessa forma, não tinha mais ideia de quantas vezes vira o sol. Não importava quanto contasse, um inesgotável sol vermelho passava sobre minha cabeça. E, ainda assim, os cem anos nunca chegavam. Por fim, comecei a achar que fora enganado pela mulher enquanto observava o musgo que crescera sobre as pedras arredondadas.
Logo após ter esse pensamento, um caule verde surgiu por baixo das pedras inclinando-se em minha direção. Ele foi crescendo e parou perto de meu peito. Na ponta do caule delgado e trêmulo, ligeiramente inclinada, uma flor em botão abriu suas pétalas. Era um lírio branco cujo perfume penetrava meu nariz e ia até os ossos. Ele foi coberto pelo orvalho vindo de algum ponto acima e balançou de um lado para o outro devido ao próprio peso. Inclinei o pescoço e depositei um beijo nas pétalas brancas molhadas pelo orvalho frio. Quando afastava o rosto do lírio, olhei para o céu distante ao acaso e vi uma única estrela brilhando na madrugada.
“Então já se passaram cem anos!”, só então me dei conta daquilo.